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09/09/2016

Vidas Secas- Graciliano Ramos


"Vidas Secas", romance publicado em 1938, retrata a vida miserável de uma família de retirantes sertanejos obrigada a se deslocar de tempos em tempos para áreas menos castigadas pela seca. A obra pertence à segunda fase modernista, conhecida como regionalista, e é qualificada como uma das mais bem-sucedidas criações da época.
O estilo seco de Graciliano Ramos, que se expressa principalmente por meio do uso econômico dos adjetivos, parece transmitir a aridez do ambiente e seus efeitos sobre as pessoas que ali estão.


O livro começa com a fuga de Fabiano e a família: sinha Vitória, a esposa, e dois filhos, que são nomeados como Filho mais Velho e Filho mais Novo e a cachorra Baleia. Eles fogem da seca, procuram um lugar para viver até que encontram uma fazenda aparentemente abandonada e resolvem abrigar-se lá. Mas, quando o período da seca passa e a chuva molha a terra rachada, o dono volta e requer o que é seu, porém, como haviam cuidado de tudo, ele permite que fiquem ali como trabalhadores.
O livro é narrado em discurso direto livre (terceira pessoa do singular) e dedica um capítulo a cada um dos personagens, inclusive à cachorra Baleia que tem um destaque e atenção muito especiais. Ela é tratada como gente, realmente como um integrante da família do vaqueiro Fabiano, enquanto os humanos são animalizados. O narrador se aproxima tanto dos personagens que às vezes fica difícil distinguir quem está falando ou pensando, se o personagem ou o narrador. Ele atua, nesse caso, como um intérprete, fundindo sua percepção de mundo com a dos personagens, principalmente no capítulo da cachorra Baleia.
Imagem retirada da internet
Outro aspecto interessante é que mesmo Fabiano sendo branco, inclusive ruivo de olhos azuis (o autor sempre faz questão de destacar suas características desmistificando, assim, a concepção de que o povo pobre é negro ou pardo, e isso causa também uma sensação de verossimilhança, pois o Sertão não recebia exportação negreira, ou seja, o povo sertanejo não era negro em sua totalidade), sempre chama seu patrão de “branco” e se coloca em uma posição inferior, se comparando o tempo todo com um animal. Ele nunca é um homem; sempre se diz “o cabra”, ou seja, um sujeito qualquer, sem direito a ser nomeado, inferior e submisso aos demais, principalmente àqueles que têm estudo, pois naquela época, 1938, nem todos tinham acesso à educação, e aqueles que tinham eram considerados superiores, os donos, os senhores e, portanto, eram respeitados e detinham o poder sob os demais.


"E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra."


"Homem bom, seu Tomás da bolandeira, homem aprendido. Cada qual como Deus o fez. Ele, Fabiano, era aquilo mesmo, um bruto."

Há um capítulo também, que quis destacar, que é o mais diferente, é o capítulo 7, pois o que dá medo a Fabiano e a família já não é mais a seca e sim a chuva. Ou seja, estão tão acostumados à sequidão que a chuva os assusta.
Outro aspecto que creio que valha a pena destacar é a estrutura do livro. Ele é construído de tal forma que nos dá a impressão de que é desmontável, pois os fatos não obedecem uma ordem cronológica, não fica claro o que aconteceu antes ou depois, que capítulo vem antes e qual o seguinte, não há uma conexão para que um dependa do outro e as ações não são contínuas, só sabemos que existe uma passagem do tempo por causa das estações. E se observarmos bem, percebemos que ele é circular, pois, por exemplo, o capítulo intitulado “Cadeia”, que fala do soldado amarelo, é o terceiro capítulo do livro, assim como o capítulo 11, intitulado “Soldado Amarelo”, é também o terceiro de trás pra frente.
Imagem retirada da internet.
A cor azul é qualificada pelo narrador como terrível, pois, para o povo do Sertão, o azul do céu indica que não há chuva e por isso mesmo, o narrador caracteriza o céu como uma tampa, como algo opressivo.
Outro destaque que quis fazer é a precariedade da comunicação entre os personagens. Assim como a seca climática que eles enfrentam, há também a seca de diálogo. É um livro lindo desde o ponto de vista estético e que vale muito a pena ler, além de ser um nacional.
O que faz Vidas Secas ser um livro atual é a problemática que ele aborda, que é uma questão de humanidade, a seca. E mesmo que as coisas tenham melhorado no Sertão, só por ele dar esse espaço para o tema, por dar espaço para as pessoas que passaram e passam por isso, ele se torna um livro com um valor atual.


Classificação:

Autor: Graciliano Ramos
Páginas: 176
Ano: 2003 (mas a primeira publicação foi em 1938)

Gênero: Romance

6 comentários:

  1. Olá Mirelle, tudo bem?
    Confesso que não conhecia o livro,nem o autor.
    Gostei da sua resenha, o livro parece abordar de uma forma diferente as questões da pobreza no sertão. Me pareceu um ótimo livro, bastante complexo.
    Obrigada por compartilhar :)

    Beijos
    Fran
    Achei e Rabisquei

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    Respostas
    1. Sim, é ótimo mesmo.
      Obrigada pela visita e pelo comentário.

      Um beijão!

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  2. Gostei demais da sua resenha!! Passei para te informar que eu te indiquei para responder uma tag, tá bem legal, passe lá ^^
    ->>https://coisasaserem.blogspot.com.br/2016/09/beds-tag-complete-frase.html

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    Respostas
    1. Fico muito feliz que tenha gostado!
      Obrigada, assim que der, responderei a TAG.

      Beijocas!

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  3. Eu sempre fugi desse livro, menina! Indiquei o blog pra mais uma TAG, outra, heheh... Passa lá pra conferir!

    http://mundoliterariodacecy.blogspot.com.br/2016/09/beds-post-n-16-tag-versatile-blogger.html?m=1

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    Respostas
    1. Mas ele é ótimo. Dê uma chance, você não vai se arrepender.
      Obrigada pela indicação.

      Um beijão.

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