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17/12/2016

É possível lutar com outras armas

Projeto Favelagrafia/ Foto: Anderson Valentim

É possível lutar com outras armas,
Contrariar as estatísticas,
Surpreender as expectativas,
Curar feridas com sorrisos.


Dizem que somos produto do meio,
Pode até ser… Mas se o contexto não for bom
Temos a opção de sermos instrumentos de transformação,
Exemplos de superação!


Quantas histórias se repetem na favela, nas vielas, no asfalto?
Quantos conseguem desconstruir
As mentiras contadas sobre o tom da sua pele?


É preciso ter fé!
Olhar para as circunstâncias e decidir fazer diferente…
Você é capaz. Somos todos capazes.
ASSINATURA-ANANZA-FIGUEIREDO1

Esse é um poema que nos faz acreditar que é possível uma mudança, o pouco que fizermos será muito. Um gesto humano diante de toda a animalidade que tornou nossa sociedade fria, pode fazer muita diferença.  Compartilho esse poema do blog da querida escritora carioca Ananza Figueiredo, dona do livro "Minha vida contada em poesia". Para saber mais sobre Ananza ou seu livro, acessem o blog aqui.

Um abração!

13/12/2016

O Corvo- Edgar Allan Poe

O corvo, escrito em 1845, é um poema do escritor estadunidense Edgar Allan Poe que traz a temática do romantismo, mas com o cenário sombrio que tanto caracteriza a narrativa do autor. A versão que analisei é a traduzida por Fernando Pessoa, que foi a que gostei mais. 

Há no poema uma repetição de palavras e estruturas, mas Poe não se preocupa com isso; elas estão ali para um determinado fim e provocam uma musicalidade triste. Através do poema, o eu lírico canta seus "ais" de tristeza pela perda da amada. 

Se pinta um ambiente escuro e denso, cheio de mistérios pelos tomos antigos que lê o protagonista.
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais [...]
Esse "vagos" refere-se a algo que não tem autoria, que é profano. São desenhadas pelo fogo "sombras desiguais", como espectros a vigiar. A paz é descrita como "profunda e maldita", até porque a tranquilidade é um purgatório para o eu lírico que sofre terríveis tribulações pela morte de sua amada. E a dor e o sofrimento dele é alongada pela "noite infinita".

Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Depois que ele pronuncia "o nome dela", o nome de mulher que ama, aparece o corvo, que representa a morte que insiste e insiste, sendo descrito como algo de tempos ancestrais, claro porque a morte está desde que existiu vida na Terra.

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.


Atena é conhecida na mitologia grega como a deusa da arte da guerra, imbatível nas batalhas, e é bem revelador o fato de o corvo pousar bem ali. A morte é imbatível porque faz parte do ciclo da vida, é uma fase pela qual todo ser humano passa e passará, não há como fugir. Ela chega com ar solene e lento e sem cumprimentar.

E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

No começo que ele vê a ave, diz que ela é de bons tempos ancestrais, mas depois, talvez porque percebeu o significado do corvo, afirma que é de maus tempos ancestrais, pois ela cravava os olhos fatais em sua alma.

"A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".


"Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!
"Disse o corvo, "Nunca mais".

E em um momento de agonia, de profundo pesar, o eu lírico implora ao corvo que lhe dê a esperança de que sua alma será alentada no mais além da vida e que voltará a ver sua amada algum dia e a resposta do corvo é "Nunca mais". Há aqui uma negação da transcendência, uma não crença em vida após a morte, o que acaba por desalentar e aumentar o sofrimento do eu poético, que tem de suportar a dolorosa presença do corvo que permanece solenemente pousado nos seus umbrais, demostrando que sua batalha é perdida.

E a minhalma dessa sombra que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Esse é o destino do eu lírico romântico, a presença constante da dor, nesse caso causada pela morte da amada, e o corvo vai representar isso, essa dor para a qual não tem remédio nem mesmo na própria morte, é um sofrimento contínuo.

11/12/2016

Amor à moda antiga - Fabrício Carpinejar





Em seu aniversário de 43 anos, Fabrício Carpinejar ganhou de presente uma velha máquina de escrever Olivetti Lettera 82 verde-esmeralda. Desde esse dia, ele se dedica a escrever nela poemas de amor e a guardá-los como um inventário de seus sentimentos e emoções ao longo de sua carreira. Pela primeira vez, a Belas-Letras publica esses poemas exatamente como os originais foram enviados à editora, em maços de papel despachados pelos Correios, sem nenhum tipo de correção ortográfica, edição ou retoques, inclusive com as próprias anotações à mão feitas pelo próprio Carpinejar. Todos os textos de Amor à Moda Antiga (inclusive este) foram originalmente escritos em máquina de escrever. O resultado é um livro orgânico, singelo e apaixonadamente imperfeito, exatamente
como o amor é.
"Quem me ensinou a amar
não gostaria que eu usasse
o que aprendi com outras.
amar é desamar."

“Amor à moda antiga” é um livro curtinho, mas intenso e original. Seu título se refere à forma de amar, esse amor que se mostra e que se quer sentido. Cada poema, seja ele pequeno ou grande, está cheio de profundidade. Há sentimento em todos eles que falam do nó que é o amor, dos desamarros e amarros da vida, da saudade do ser amado, da importância de dizer o que sente e não somente o que pensa, da efemeridade que é viver, da fragilidade que é estar respirando. Eles passam do amor ao sofrimento, e vice e versa, num virar de páginas. Há um toque de sensualidade em alguns, em outros é mais escancarado, mas nada perto do vulgar. Ás vezes o amor aparece da forma mais simples, às vezes, personificado, vestido de um objeto, de uma sensação.

Imagem do blog "Desbravador de mundos".
Os poemas estão escritos em versos e rimas livres e em letras minúsculas. Achei muito interessante isso de os textos não ter sido revisados, é como se pudéssemos ver Fabrício em pleno ato de composição. Aqui e acolá há palavras riscadas, outras substituídas. E os rabiscos que pra muitos podem parecer feios, pra mim se parecem como uma parte dos poemas, não como algo exterior, mas algo que está imbrincado no significado deles. Não são somente poemas jogados em uma folha e entregues ao leitor; pode-se perceber, através do que se parece descuido, o ato mesmo de escrever. A escrita fala de tudo isso que destaquei no primeiro parágrafo, mas, sobretudo, ela fala de si. Esse amor, que é o centro dos poemas e que se mostra pela escrita, é também o ato de compor. Ele se desnuda e mostra sua essência. Se pinta na poesia de Carpinejar não somente uma imagem do pessoal, biográfica, senão uma imagem poética. Vejo em "Amor á moda antiga" uma poesia que chama a atenção para si mesma e, à medida que se constrói formalmente, se despe e mostra seu interior. É por isso que além de ler sentimos cada palavra, como tinta que colore nossa alma dos mais diversos tons. 

Bom, foi isso o que achei do livro. Creio que dá pra perceber que o recomendo só pelo meu comentário, não é? Hahaha. Não deixem de ler essa maravilha e de comentar o que lhes pareceu. Gostaria de saber o que vocês acharam dele e da resenha, ok? 
Um abração, meus queridos amigos leitores! 💗

"Só é livre quem não ama.
amar é nascer de novo
com o mesmo desamparo,
sem direito a escolher o nome
os pais, a casa.
é assumir as consequências 
de um destino emprestado."


Classificação:
Autor: Fabrício Carpinejar
Ano: 2016
Páginas: 104
Editora: Belas Letras
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